22.10.12

Não me deixes


Acabou de cair tudo. A lua que se mantinha lá no alto acabou de tombar. As aves que teimavam em voar sobre mim caíram mortas na terra e foram devoradas por esfomeados. O sol que apareceu depois da queda da Lua também desapareceu, só não caiu porque já não havia solo para o manter. Estou com medo de me deixar cair, de me deixar levar por esfomeados, que me pisem até ao ponto de rebentar com o pouco que ainda tenho, com medo desses predadores e parasitas que se aproveitam dos fragilizados da vida. Já pensei fugir, mas não iria adiantar porque o solo é todo o mesmo. Já pensei construir barreiras, muros altos, mas não servem de nada, os esfomeados são todos desenvolvidos, de tal forma que para eles seria algo tão simples de destruir. Tombam-me os joelhos, elevo as mãos à cabeça, chamo por alguém que me ajude e me liberte deste inferno, que me tire estas roupas usadas, estas memórias, esta vida que nunca foi minha e que me leve para um lugar mais calmo e sereno onde tudo seja simples e lindo. Abraça-me, guia-me por este mundo de corpos, meras estruturas ósseas, que não sentem o que é bom e o que é menos bom. Leva-me para um mundo de corpos ocupados por almas que pensam e refletem sobre isto e aquilo. Não me deixes caminhar sozinha. Está tudo a cair e tenho medo.


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