Acabou
de cair tudo. A lua que se mantinha lá no alto acabou de tombar. As aves que
teimavam em voar sobre mim caíram mortas na terra e foram devoradas por
esfomeados. O sol que apareceu depois da queda da Lua também desapareceu, só
não caiu porque já não havia solo para o manter. Estou com medo de me deixar
cair, de me deixar levar por esfomeados, que me pisem até ao ponto de rebentar
com o pouco que ainda tenho, com medo desses predadores e parasitas que se
aproveitam dos fragilizados da vida. Já pensei fugir, mas não iria adiantar
porque o solo é todo o mesmo. Já pensei construir barreiras, muros altos, mas
não servem de nada, os esfomeados são todos desenvolvidos, de tal forma que
para eles seria algo tão simples de destruir. Tombam-me os joelhos, elevo as
mãos à cabeça, chamo por alguém que me ajude e me liberte deste inferno, que me
tire estas roupas usadas, estas memórias, esta vida que nunca foi minha e que
me leve para um lugar mais calmo e sereno onde tudo seja simples e lindo.
Abraça-me, guia-me por este mundo de corpos, meras estruturas ósseas, que não
sentem o que é bom e o que é menos bom. Leva-me para um mundo de corpos
ocupados por almas que pensam e refletem
sobre isto e aquilo. Não me deixes caminhar sozinha. Está tudo a cair e tenho
medo.

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